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Ercília Pollice

Escritora, poeta, acadêmica da Academia de Letras de Bauru,
artista plástica e assessora de Arte de Ju Machado-Escritório de Arte

 

Segurando o Tempo

segunda-feira, 14/06/10 - 09h43

O tempo é o mágico de todos os mistérios / (Guimarães Rosa)

Hier encore j`avais vingt ans, et je perdu le temps a joueux de ma vie... / (Charles Aznavour- chanson )

Cada vez mais, o tempo me intriga. Essa coisa de envelhecer na idade biológica, e o coração, esse danado, teimar em continuar jovem, é no mínimo, um grande complicador!

Driblar os desalentos, driblar os desapontamentos que nos atingem pela vida à fora, perdoar os desafetos que angariamos sem que nem saibamos o porquê, não deixar a esperança morrer, mesmo que os sonhos não se tenham todos concretizados... Eta trabalheira danada!

Eta viver complicado, que exige sabedoria. Uma sabedoria que não se aprende em livros, mas se aprende no "tête a tête" com a vida e no toma lá, dá cá, com os fatos acontecidos.

O tempo, quem me conhece bem, sabe, sempre me intrigou, sempre me instigou a teimar em não me deixar levar pelo “status quo” que separa as pessoas pela data da certidão de nascimento.

Gosto das pessoas, as aceito, as procuro entender, amo muitas delas, independentemente da idade que têm, do credo que confessam, da cor, ou do dinheiro.

Mas as que mais admiro e amo, são aquelas que choram quando ouvem "She" cantada por Charles Aznavour, se encantam com o ar do outono, e ainda gostam de ouvir estrelas. "Ora direis, ouvir estrelas? / Certo perdeste e censo... Eu vos direi: Amai para entende-las, pois só quem ama pode ter ouvidos / capaz de ouvir e de entender estrelas". (Olavo Bilac)

Encantam- me as pessoas que choram com filmes, riem com as próprias trapalhadas, sonham com o amor romântico.

A verdade é que desde que o amor romântico ficou "old fashion", fora de moda, out, e o modelo de família que conhecemos e vivemos, foi sendo substituído por outro, tudo ficou meio bagunçado.

Não há mais certeza alguma, nem parâmetros a serem seguidos, e as pessoas não querem mais cuidar, não querem mais se arriscar, não querem mais perder tempo com nada , muito menos com alguém. Porque isto as faz sofrer.

Meu princepezinho, que me perdoe Exupéry, da apropriação indébita, já ouvia a sábia raposa dizer: "É o tempo que perdemos com alguém que faz dela , alguém especial pra nós, e consequentemente nos faz amá-la, e não a deixa virar 'mala' nunca. Nem com alça e nem sem alça".

Brincadeiras à parte, o mosaico da vida mudou e esse quebra cabeças, começa a ficar com muitas peças faltando. Espaços vazios sem nada a se colocar no lugar.Desenho, consequentemente incompleto.

Trocou-se o mergulhar na vida de cabeça, e sofrer pelo amor e pela família, e com a família, para que todos cresçam juntos, e no final se sinta feliz com a vitória dos filhos, com o vir dos netos, pelo sofrer sozinho de solidão. Enfim nós mulheres sofríamos para sermos recompensadas.

Não adianta negar, o quinhão de nosso prazer, ainda é ser reconhecida pelo outro.

O viver moderno prolifera meios de sermos sós e isolados. É delivery de revistas, comida, de filmes etc... É internet, home theater, enfim tudo o que nos torne solitários convictos e felizes em nossa solidão.

Mas como em tudo na vida, a solidão também tem seu lado miserável, e acabamos mais dia menos dia, nostálgicos, sofrendo em estarmos sós.

Conclusão: com medo de sofrer com o outro, passamos a sofrer sozinhos. Mudamos de sofrer de como manter a família, para sofrer de solidão,prejuízo de nunca termos alguém a compartilhar a vida conosco. Já disse alguém com muita propriedade que a alegria dividida vale o dobro e tristeza dividida vale a metade.

O amor romântico moldou nossa sensibilidade. A família era importante para nós, os livros que líamos, os filmes que assistíamos a música que ouvíamos tinham um papel catártico. Sofríamos, chorávamos, ríamos às gargalhadas, mas sabíamos que aquela peça, aquela história não era real. Era claro em nossa cabeça, que não íamos viver aquilo, que era apenas uma representação. Era a nossa catarse.

Desde o teatro grego, o sofrimento era apenas catártico, ninguém acreditava que ia viver aquilo, A vida fora dali era outra. Era pra ser vivenciada com lutas e vitórias, mas tínhamos de trabalhar cada dia, como um campo a ser conquistado.

Conclusão: Com medo de sofrer com o outro, passamos a sofrer sozinhos. Mudamos de sofrer de como manter a família, para sofrer de solidão,prejuízo de nunca termos alguém a compartilhar a vida conosco.Já disse alguém com muita propriedade que a alegria dividida vale o dobro e tristeza dividida vale a metade.

O amor romântico moldou nossa sensibilidade. A família era estarmos sós.

Desde o teatro grego, o sofrimento era apenas catártico, ninguém acreditava que ia viver aquilo, a vida fora dali era outra. Era pra ser vivenciada com lutas e vitórias, mas tínhamos de trabalhar cada dia, como um campo a ser conquistado.

A grande arte era apenas modelo de entretenimento.

Ninguém queria morrer como as heroínas dos romances da era do romantismo. Tudo muito exagerado, justamente para ser catártico. Uma alerta, um "aware".

Contudo de uns tempos para cá, a mídia nos levou a acreditar que o espetáculo era um padrão de vida e convenceu-nos a imitá-lo.

Daí, se a heroína da novela das 8 que diga-se de passagem , nunca é as 8, veste assim ou assado, a moda corre atrás e todos vamos nos vestir como ela, mesmo porque, de repente, não nos oferecem coisa diferente, algumas vezes.

Da catarse passamos a mimese (imitação)

Não parámos apenas nas roupas, começou-se a imitar-lhe o comportamento, seu estar diante da vida e do mundo. Um estar sem compromisso com nada além do aqui e do agora. Com ninguém a não ser com sua própria individualidade e prazer.

Mudamos a ótica do tratar o outro, para uma ótica de como eu quero as coisas. Não me interessa como, nem porque, mas se algo me satisfaz, corro atrás, mesmo que para isso atropele meio mundo.

Mas, infelizmente, ou felizmente , não sei, moda emocional, não é moda de roupa. Em matéria de emoção, o ser humano é como um elefante. Para mudar um pouquinho, pouca coisa, precisamos de um guindaste. Temos de criar pilares, não podemos mudar de repente à marteladas. Nossa alma é como nosso corpo, sem exercício se atrofia.

A vida não é pra ser vivida assim. Tudo tem um caminho a seguir, sem pular etapas, sem entrar em atalhos,

A educação atropelou-se encurtando caminhos, ninguém tem paciência de sentar-se e ler um livro degustando-o devagarinho. Queremos ler a sinopse.temos supletivos, temos workshops, temos resumos da História, não há nada sedimentando-se aos poucos.

E construção sem alicerce, pode ser lindamente terminada e decorada com sofisticação, mas cai!

Hoje em dia, tudo é fácil e sem esforço. Mas sentimento não se enquadra nisso.

Relacionamentos se constroem com paciência, não há como o bem estar de uma relação aconteça como nas novelas, instantaneamente.

Todavia, quase todos acreditam que tem de ser assim. Ou acontece tudo rapidinho, ou partimos pra outro depressinha, sem pestanejar.

A dilaceração atual só vai mudar, quando a pauta cultural mudar, porque artistas e intelectuais são os formadores de opinião.

Mudamos a ótica e não encontramos nada melhor pra pó no lugar.

Não se pensa na História, não se pensa no futuro. Ninguém faz história sozinho.

Ouvi certa vez, que a vida só é bela para os ressuscitados. Na ocasião fiquei meio pensativa à respeito, mas hoje entendi que ressuscitados, somos todos os que sabemos levantar após cada morte, após cada tristeza, após cada sonho desfeito, e recomeçar de novo, carregados de esperança, que tudo vai mudar e pode dar certo.

Nós, de outra geração ouvíamos canções baseadas na linha melódica de Chopin: isso inclui todos: de Nelson Cavaquinho a Chico Buarque. Quem féz a trilha sonora do século XX foi Sinatra.

Hoje a música apreciada, é apenas um baticum com uma falação sem sentido e portanto sem conteúdo. Bruno e Marrone, Zeca Pagodinho...Credo, até me arrepia! Como alguém pode estar se preparando para o ato de amar, ouvindo um rap, um reggae, um rock pauleira, ou um pagode ? Dá? Não, convenhamos, não dá.

O coração tem de se preparar, as carícias de amor, o aconchego, o carinho o dar-se, exigem uma trilha sonora, bela, harmoniosa, que nos faça doer o peito por dentro. Que nos traga de volta as lembranças boas, a certeza de que a vida pode ser uma beleza, que é possível sonhar e ser feliz, nem que seja por instantes.

Que a saudade que sintamos seja a saudade de nós mesmos cheios de sonhos e desejos.

Afinal, todos sabemos que ser feliz é um verbo de ligação que transforma um adjetivo qualquer, num predicativo do sujeito.

Então, vamos lá, enquanto não temos modelo melhor que o amor romântico, e as músicas inspiradas em Chopin, nem um luar lindo como os de abril a julho, nem bicos de papagaio florescendo em julho e acácias amarelas, todas elas belas, como pétalas em salvas de ouro, e enfeitar as calçadas, vamos aproveitar nosso tempo, amando e curtindo a família que temos, que muitas vezes, pode nem ser a ideal, mas é a nossa. É onde nos sentimos em casa, onde podemos ser como somos, sem maquiagem, sem purpurina, sem dissimulações.

Viva a liberdade de ser sem precisar estar.

E o tempo?

Bem, o tempo, vai passar mesmo. É inexorável! Não perdoa.

O tempo como a morte iguala todos os homens! Sim, digo homens, englobando a nós mulheres, não como quer Lacan, ao afirmar que a mulher inexiste!

Só rindo, porque isso já é assunto pra outra crônica!

O tempo perdido... Quem o trará de volta?

Nem lendo Proust, (Lê temps perdu), nem a holística, nem a acumpuntura ou os florais todos. Nada.

Enquanto a física quântica não nos dá a certeza que queremos, fiquemos com a que temos.

O que temos é hoje!

Acorda, dona Maria! Já passou mais de 20 minutos enquanto você me leu.

Sinto muito! Sorry! Perdão!

 
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