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Ercília Pollice

Escritora, poeta, acadêmica da Academia de Letras de Bauru,
artista plástica e assessora de Arte de Ju Machado-Escritório de Arte

 

Solidão de Manhã

quarta-feira, 27/10/10 - 14h20

“Ah , pavoroso mal de ser sozinha,
Ah! Pavoroso mal de ser sozinha ,
E, ter tantas almas a rir dentro da minha".
(Florbela Espanca)

SOLIDÃO DE MANHÃ, POEIRA FAZENDO ACENTO, RAJADA DE VENTO... CORAÇÃO SANGRANDO A PALAVRA SÃ... CASTELO DE AREIA... ILUSÃO... O SOL BRILHA POR SI..., é a 12a vez que Djavan canta isso nessa manhã esplendorosa deste sábado de junho.

Banho tomado, massagista veio e caprichou na dose. Roupa gostosa, toda de tons lilás diferenciados. Coco Chanel nas orelhas.

Já viu a neneca 2, sua Manu, pelo skype do outro lado do mundo.Vontade de abraçar seu corpinho macio e cheiroso e beijar-lhe as bochechas coradas.

Ouvir-lhe o gargalhar ressoando pela casa.

Nem se deu conta, quando viu já eram 13 horas.Comeu alguma coisa. Não resistiu o doce de leite e lambuzou no requeijão. Espera visitas a tarde. Amigos de muitos anos, amigos de sempre.

Já recebeu declarações de amor. Já se desentendeu também. Ë brava. Sabe que é. Mas tem um atenuante, isso só acontece quando percebe mentira no pedaço.

Sempre preferiu a mais dura verdade à mais doce mentira.

Uma amiga ligou. Leu a crônica no jornal na quinta-feira e se surpreendeu. Disse ser crônica de quem está amando. Será?

Se o mundo não pára pra ninguém descer, vamos que vamos, pensa consigo mesma.

Afinal a vida sucede à própria vida e os acontecimentos se atropelam de maneira que nem se tem tempo de assimilá-los.

Certezas? Nemhuma. Só uma coisa é certa: o futuro é uma caixa de surpresas.

Olha lá fora e vê o céu. Há pouco estava escandalosamente azul, agora já se travestiu de nuvens gordas, fofas e brancas. lembrou-se do algodão doce de sua infância.

Delícia ser menina naquele tempo. Ninguém a businar-lhe nos ouvidos que açúcar era proibido.Tortas, bolos, pães... Tudo permitido, incentivado e abençoado.

Seu pai , toda a tarde, segurava-lhe as mãozinhas e a levava com ele até o Correio, lá pegava as correspondências, e o jornal "O Diário de S. Paulo. Ficava tudo lá, guardado esperando por eles, na caixa postal 124, ela assim pensava.A menina ia toda prosa, falando por todo o caminho, dengosa "como a dona baratinha da história... "que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha".

Depois, era sempre a mesma coisa, passavam pela "Brassérie"e seu pai enchia-lhe de doces, sorvete e a famosa bala preferida; bala de cevada Sonksen... Coisa boa!

De volta à casa de portão ladeado por dois leões de pedra, depois de contar tudo com todos os detalhes à mãe e às irmãs mais velhas, sentava na sua cadeirinha de balanço, igualzinha à do pai, e, cantava, cantava, cantava e encantava com sua vozinha afinadinha e rouca. Era feliz! Era amada!

Sua irmã a levava a passear pelo jardim aos sábados ,e , passando pela loja de calçados a deixava escolher qual gostasse.Conta aberta, ordem de seu pai. Taí aí a explicação para este complexo de centopéia, que persiste até agora.

Hoje, ela já não gosta de sábados. Como aquela menina de tranças. Perdeu a data de quando começou a não gostar de sábados.

Sábado agora é sem graça. Ninguém para alvoroçar a casa, encher a sala, apreciar a comida. Não mais conversas em volta à mesa.

É desalentador esperar da vida qualquer coerência na continuidade.Há que se viver cada dia como sendo único. Ela sabe que este é um refrão batido, mas muito verdadeiro.

Ela fez de sua casa um lugar especial. Fez de sua família algo inusitado e maravilhoso. Era um lar. Realmente um lar no sentido mais exato da palavra; seu significado mais profundo.

Aquele lugar onde todos sentem-se aconchegados, acalentados. Felizes. Em paz! Protegidos!

Haverá coisa mais precisada a uma família do que proteção?

Mas a vida não premia ninguém, e mais dia, menos dia prega-nos uma peça. A dela veio antes da hora, se é que existe hora pra isso.

Ser só não é ser solitária, assim como ser solitária não é sinônimo de ser só.

Mas, a verdade é que apesar dos amigos especiais que sempre teve, da família maravilhosa, há aquele "mas" lá do início da frase. E, mas, todos sabemos é uma conjução subordinativa adversativa; todos maravilhosos, mas....cada um na sua casa com os seus, como deve ser.

Lembra-se da casa da mãe. Todos reunidos aos domingos para o almoço. Outros tempos...

Sempre gostou de reunir para comer. Gosta ainda.

Comida compartilhada é carinho, é aconchego. As conversas em volta à mesa, as risadas, as caçoadas. As gostosas sobremesas. Ela ainda é campeã em sobremesa deliciosa.

Mas, olha o mas aí de novo, agora é um tal de ninguém querer crème, pavé, quindim ou quindão, pudim de coco...

Nossa, que neura! Silhueta nenhuma merece este sacrilégio.

Quer saber?

Só dizendo como o poeta:

"Vou me embora pra Passárgada,
Lá sou amigo do rei,
Lá tenho o homem que quero,
Na cama que escolherei".

 
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