A Viagem
segunda-feira, 28/07/08 - 13h20
Certa vez, li num livro uma comparação
da vida com uma viagem de trem. E isso me deu a convicção
de que, seria este o motivo de eu me emocionar tanto com
um trem entrando ou saindo da gare de uma estação.
É engraçado, que estações
de trem com seus arcos redondos de ferro, cheios de estilo,
e aquela neblina de fumaça, mesmo que o trem não
seja a Maria – Fumaça de minha infância,
me tocam tão profundamente, como se aquilo fizesse
parte de minha história, em algum momento ou em
algum lugar . Talvez o famoso “dejà vus”.
A verdade é que, realmente embarcamos
nesse trem da vida, sem bagagem alguma e nos deparamos,
logo, com duas pessoas que pensamos, nunca sairão
de nossas vidas. Ledo engano, mais dia menos dia, nossos
pais desembarcarão em uma estação
qualquer, e, nos deixarão sem o seu amor, seu carinho,
sua ternura, sua compreensão.
Contudo, continuamos a seguir viagem
e ao longo dela, vamos adquirindo outros bens de grande
apreço: nossos irmãos, nossos filhos, amigos
queridos...
Alguns fazem a viagem à passeio,
já outros a fazem de forma dolorosa.
Há aqueles que passam de vagão
em vagão prontos a estender as mãos a quem
precisar. Estes quando desembarcam deixam grandes saudades.
Outros, porém, ao desembarcar,
nem são notados.
Curioso observar que alguns passageiros
que nos são tão queridos, num dado momento,
separam-se de nós, sentando-se em vagões
diferentes do nosso. Isso nos obriga a fazermos a viagem
longe deles, mas não nos impede de atravessarmos
nosso vagão e irmos até eles, de vez em
quando, mesmo que seja doloroso aceitarmos que viajaremos
sem eles ao nosso lado, pois outra pessoa estará
ocupando esse lugar.
Essa é uma viagem cheia de atropelos,
sonhos, fantasias, esperas, surpresas, embarques e desembarques.
Sabemos, no entanto, que esse trem jamais volta. Nossa
passagem é só de ida.
Temos de nos lembrar que, algumas vezes
as pessoas fraquejarão, e precisarão de
nossa compreensão. Em outras, nós, é
que fraquejaremos... E, certamente, alguém nos
entenderá.
O paradoxal é que apesar dos desacertos
e de todos os desencontros, queremos que nossa viagem
seja longa em companhia dos que a dividem conosco.
O grande mistério é que
não sabemos em qual parada desceremos, ou eles...
Sentirei saudades dos que deixarei quando
desembarcar? Não sei dizer!
Mas o que sei é que quero que
os que ficarem, tenham boas lembranças e saudades
de mim.
O trem,vira e mexe, diminui sua marcha
para alguém sair ou entrar.
Creio que essa viagem cheia de embarques
e desembarques não significa apenas o nascimento
e a morte, mas, também, o término de uma
história que duas ou mais pessoas construíram
juntas, e, algum momento, por motivos ínfimos,
ou alheios à sua vontade, deixaram desmoronar.
Daí então, se nossa travessia
continuar, teremos de ter garra, e muita vontade de lutar,
para, dali, daquela estação, recomeçarmos,
como se tivéssemos embarcado pela primeira vez,
e tentarmos encontrar novos passageiros para compartilhar
conosco o resto da travessia.
Gostaria de poder dizer para muitas
pessoas, que embora não sejamos mais vizinhos de
assentos, fico feliz que já tivéssemos,
um dia, ocupado o mesmo vagão.
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