Obama, o desafio da saúde e o Brasil
quarta-feira, 15/04/09 - 18h15
por Marcos Bosi Ferraz
Nos últimos anos temos observado um
debate e tendências interessantes: ou seja, países
com um sistema de saúde com financiamento predominantemente
público com crescentes iniciativas típicas de
sistemas privados de saúde e, sistemas onde o investimento
privado predomina desejosos por um maior investimento do setor
público e conseqüente universalização
do sistema de saúde. No primeiro grupo podem ser citados
o Canadá e alguns países europeus e no segundo
grupo o exemplo emblemático é o EUA.
Não há um sistema de saúde certo e outro
errado, mas sim sistemas de saúde com fatos pregressos
que justificam a sua forma e estruturação atual,
sendo este normalmente uma expressão viva dos valores
que cada sociedade mais respeita e acredita. A consideração
e a valorização de alguns princípios
doutrinários distinguem os diversos sistemas de saúde.
Ao mesmo tempo, a preocupação e o respeito aos
direitos individuais e coletivos definem e justificam alguns
destes princípios doutrinários
Nos últimos meses temos observado uma crescente discussão
em torno da ineficiência do sistema de saúde
americano e a respectiva exclusão dos quase 50 milhões
de americanos que não possuem um seguro-saúde,
os chamados desassistidos. O presidente Obama reconhecendo
tais deficiências definiu como uma de suas prioridades
a “reforma” de seu sistema de saúde.
Comparações são interessantes e devemos
aprender com as experiências em curso. Neste cenário,
quais são as semelhanças e diferenças
entre os sistemas de saúde brasileiro e americano?
São muitas, mas ressalto apenas alguns aspectos relevantes
no que tangem a financiamento, acesso, e reconhecimento das
limitações e busca de soluções:
1. Brasil e EUA apresentam um sistema híbrido de financiamento
de seus sistemas de saúde, ou seja, ambos os países
apresentam um leve predomínio de financiamento privado.
2. O investimento absoluto e relativo dos EUA é muito
maior que o brasileiro, decorrente obviamente da riqueza da
nação em termos absolutos, mas também
da priorização e alocação dos
investimentos em saúde (Brasil cerca de 7,5% e EUA
17% dos respectivos PIBs).
3. A disponibilidade de dados e informações
sobre o sistema de saúde americano, o que permite reconhecer
claramente e prontamente suas deficiências. Neste sistema
há sim quase 50 milhões de excluídos,
desassistidos, porém os mesmos têm acesso restrito,
não ideal, a um sistema de saúde quando em situações
de urgência ou emergência. Obviamente caracteriza
uma situação não desejada em todos os
aspectos. E aqui no Brasil, completados os 20 anos de SUS,
quantos são de fato os desassistidos pelo mesmo conceito?
4. O reconhecimento do problema e a busca de soluções
de forma transparente, explícita e clara diferenciam
ambos os países. No modelo americano valoriza-se o
emprego e a vida produtiva como responsáveis pelo financiamento
privado do sistema. Idosos, desempregados ou incapacitados,
ou crianças de famílias menos favorecidas do
ponto de vista econômico são dependentes do financiamento
público integral ou parcial (Medicaid, Medicare e SCHIP).
Embora não seja um sistema universal, e haja muita
ineficiência no uso do recurso, o mesmo está
estruturado e tem regras claras de inclusão e proteção
social. Há o respeito e valorização à
responsabilidade, decisão e escolha individual, embora
algumas destas ações aconteçam em detrimento
do coletivo. E no Brasil? Bem, no Brasil temos pouco mais
40 milhões de brasileiros têm direito ao acesso
a ambos os sistemas, público por toda a vida e ao suplementar
por parte da vida, enquanto contribuinte. Há 150 milhões
de brasileiros que dependem exclusivamente do sistema público,
que na imensa maioria das vezes infelizmente, por falta de
opção, apenas freqüentam ocasionalmente
pronto-atendimentos. O volume de usuários e a dificuldade
de acesso aumentam com o desemprego e com o crescimento do
percentual de idosos sem condições de manter
o pagamento de seu plano de saúde.
O sistema de saúde americano há décadas
atrás iniciou um processo de melhoria de seu sistema
de saúde de forma incremental, com pequenas ações
e mudanças, cada uma a seu tempo, alinhada com o limite
econômico e o tolerar do cidadão americano, fundamentada
no princípio “PAYGO - pay as you go”. Agora
o presidente Obama está frente a novo desafio, continuar
neste processo de melhorias incrementais ou propor uma reforma
completa de seu sistema de saúde, tendo como objetivo
prioritário a universalização do sistema
de saúde.
Este processo merece ser observado, pois pode servir para
gerar discussões sadias, sérias, maduras, construtivas,
além de estimular a tomada de decisões que sejam
responsáveis e favoreçam de fato o cidadão
brasileiro.
Marcos Bosi Ferraz é diretor do Centro Paulista
de Economia em Saúde (CPES/Unifesp), diretor de Economia
Médica da Associação Médica Brasileira
(AMB), Médico do Grupo Fleury e autor do livro ``Dilemas
e Escolhas do Sistema de Saúde``.