Medicina é coisa séria
quinta-feira, 24/12/09 - 09h00
por Antonio Carlos Lopes
É inadmissível pensar em voo cego quando
o assunto é Medicina. Mas, infelizmente, a
realidade brasileira segue rota turbulenta e perigosa.
Recentemente, uma avaliação facultativa
realizada recentemente pelo Cremesp (Conselho Regional
de Medicina do Estado de São Paulo) para verificar
os conhecimentos dos futuros médicos teve resultado
alarmante: 56% dos formandos foram reprovados logo
na primeira fase, reforçando as evidências
do péssimo nível do ensino médico
no país.
O resultado é indicativo de que os brasileiros
correm elevado risco. Afinal, apenas voluntários
participaram da prova, que, aliás, foi boicotada
por muitos alunos com incentivo de faculdades deficientes.
Outra questão a ser considerada: se, em São
Paulo, a situação é escandalosa,
o que dizer de outras regiões do Brasil nas
quais o ensino é ainda mais deficiente?
Faz quase duas décadas que as entidades médicas
alertam a sociedade sobre a abertura de escolas de
Medicina sem qualificação. A situação
atual é escandalosa: o Brasil tem 178 faculdades
de medicina que oferecem 17 mil novas vagas ao ano.
Só que muitas delas não possuem hospital
universitário próprio, além de
contarem com corpo docente desqualificado.
É um problema gravíssimo de saúde
pública. Para solucioná-lo, é
mister o estabelecimento imediato da obrigatoriedade
da prova de habilitação para o exercício
da Medicina. É fundamental que o exame tenha
caráter reprovatório, garantindo que
profissionais mal preparados não estejam na
linha de frente do atendimento à população.
Simultaneamente, é necessária a mobilização
da sociedade para exigir medidas saneadoras urgentes,
deixando claro aos parlamentares e às autoridades
constituídas que vidas humanas merecem respeito.
Além da obrigatoriedade da prova de habilitação,
o Congresso Nacional precisa aprovar, com urgência,
o projeto de lei 65/2003, estabelecendo parâmetros
para autorização de funcionamento de
cursos de medicina, garantindo, por exemplo, a existência
de hospital-escola próprio e corpo docente
vinculado ao hospital universitário.
Antonio Carlos Lopes é presidente da Sociedade
Brasileira de Clínica Médica