quarta-feira, 18/11/09 - 14h00
por Antonio Carlos Lopes
Há algum tempo a Residência Médica
no Brasil vem sofrendo ataques frequentes e equivocados.
Membros do próprio governo, alheios ao
tema e sem a menor competência técnica
para opinar e decidir sobre o mesmo, aventuram-se
a sugerir maneiras de aproveitar a Residência
Médica para, por exemplo, resolver o problema
da falta de profissionais de medicina em áreas
remotas e de difícil acesso. São
posições oportunistas sobre a formação
médica, questão que deveria ser
tratada com a máxima seriedade.
Os desvios são inúmeros. A começar
pelos interlocutores que ousam abordar o assunto.
O posicionamento, neste caso, cabe única
e exclusivamente à Comissão Nacional
de Residência Médica do Ministério
da Educação. No entanto, a Secretaria
de Gestão de Trabalho e Educação
na Saúde do Ministério da Saúde
invade a área de atuação
da CNRM, buscando assumir responsabilidades que
não lhe cabem.
As distorções prosseguem quando
se discute a escassez de programas de residência
em Estados do Norte e Nordeste, como se o problema
fosse localizado. Mais de 50% dos graduados em
medicina não encontram vagas, que deveriam
existir em número suficiente para qualificar
a todos, uma vez que a residência médica
é a melhor forma de treinamento após
a graduação.
O que aquela Secretaria busca hoje, infelizmente,
não é resolver o problema da má
formação médica. É
fazer dos residentes mão-de-obra barata
para encobrir certos gargalos da saúde.
São gargalos provenientes da falta de plano
de carreira, condições mínimas
para o exercício da medicina, do fracasso
do Sistema Único de Saúde (SUS),
entre outros.
Parece que os membros da Secretaria de Gestão
de Trabalho e Educação na Saúde
do Ministério da Saúde continuam
vendo a medicina pela janela dos gabinetes. Certamente
não é assim que se constrói
uma medicina melhor, mais segura e de qualidade
aos cidadãos.
É lamentável o desserviço
prestado por aqueles que tentam assumir a competência
que é da Comissão Nacional de Residência
Médica. Médicos de qualidade se
formam à beira do leito, com preceptoria
qualificada e responsável, com experiência
clínica, humana e acompanhamento competente.
Se houvesse de fato interesse em resolver o problema,
uma real contribuição seria, por
exemplo, remunerar os preceptores dos vários
programas de residência médica.
Como divulgado recentemente pela Secretaria de
Gestão de Trabalho e Educação
na Saúde do Ministério da Saúde,
as duas mil bolsas de residência médica
a serem distribuídas para as regiões
de difícil acesso certamente ficarão,
quase na sua totalidade, ociosas, a exemplo da
experiência verificada há 3 anos.
Em 2006, foram disponibilizadas 280 bolsas e apenas
20% delas aproveitadas. Após um ano esse
número ainda caiu pela metade.
Então fica inevitável perguntar:
por que a necessidade da exposição
na mídia de fatos não consumados
nesta época específica do ano? A
resposta é evidente até mesmo para
os mais desinteressados - o pano de fundo é
puramente eleitoreiro.
Antonio Carlos Lopes é presidente da Sociedade
Brasileira de Clínica Médica, ex-secretário
executivo da Comissão Nacional de Residência
Médica e professor titular da Disciplina
de Clínica Médica da Universidade
Federal de São Paulo