Combate à desnutrição
faz déficit de altura cair mais de 75% em crianças
quinta-feira, 19/11/09 – 21h25
Pesquisa do Ministério da Saúde aponta
avanços, em 33 anos, no acesso à alimentação
do brasileiro. País espera eliminar desnutrição
entre 10 e 15 anos
O acesso à alimentação está
aumentando a estatura das crianças brasileiras.
O déficit de altura nas meninas menores de
cinco anos, um dos principais indicadores de desnutrição,
caiu 85% de 1974 a 2007. Entre os meninos, a redução
foi de 77% no mesmo período. Pesquisa inédita
Saúde Brasil 2008, do Ministério da
Saúde, avaliou o crescimento da população
e verificou que, caso o Brasil mantenha o ritmo, a
desnutrição será praticamente
nula entre 10 e 15 anos.
Porém, isso não significa que, necessariamente,
a população está se alimentando
de maneira saudável. O mesmo estudo mostrou
que o risco de obesidade vem aumentando no país,
principalmente entre os jovens do sexo masculino.
“O aumento da altura do brasileiro é
um reflexo da melhoria do padrão nutricional.
Os investimentos em políticas públicas
de distribuição de renda, de saneamento
e de melhorias na alimentação e nutrição
contribuíram para avanços e superação
da desnutrição no país”,
analisa Deborah Malta, uma das responsáveis
pela pesquisa Saúde Brasil 2008 e coordenadora-geral
de Doenças e Agravos Não-transmissíveis
do Ministério da Saúde. Ela destaca
que o crescimento na estatura das crianças,
o maior entre todas as faixas etárias, permite
ao país uma visão otimista quanto ao
fim da desnutrição infantil, considerado
um problema de saúde pública.
Segundo Deborah Malta, os dados apontam exatamente
a mudança no perfil nutricional do brasileiro,
de um estado de desnutrição para o sobrepeso.
O aumento do risco de obesidade entre os adolescentes
alerta para o padrão de alimentação
dos jovens. “Eles optam cada vez mais por produtos
gordurosos e deixam os exercícios físicos
de lado. Um comportamento que pode continuar na vida
adulta”, avalia a coordenadora.
A pesquisa Saúde Brasil 2008 comparou o resultado
de cinco questionários domiciliares sobre estatura
e Índice de Massa Corporal (IMC) realizados
no Brasil entre 1974 e 2007. É a primeira vez
que o estudo, feito anualmente pelo Ministério
da Saúde, traz informações sobre
altura e risco de obesidade.
BRASILEIRO ESTÁ MAIS ALTO -
A análise sobre a redução no
déficit de altura mostra que as crianças
brasileiras estão cada vez mais próximas
do padrão internacional estipulado pela Organização
Mundial de Saúde (OMS), que é feito
a partir das medidas antropométricas (peso
e altura) de meninos e meninas sadias. Dados da Pesquisa
Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), do Ministério
da Saúde, apontam que a desnutrição
atingia, em 1996, 13,4% das crianças com menos
de cinco anos. Caiu para 6,7% em 2006 – queda
de 50% em dez anos.
O Saúde Brasil 2008 demonstra ainda que os
ganhos em altura ocorrem também nos adolescentes
de 10 a 19 anos. Nessa faixa etária, a redução
foi de 70%, aproximadamente, em 29 anos (1974-2003).
“Uma vez que se tem maior acesso a alimentos,
as crianças podem crescer em todo o seu potencial
genético. Assim, as novas gerações
estão ganhando em altura” explica Deborah
Malta.
Os avanços são observados também
na população adulta. O estudo comprova
que o brasileiro está mais alto. As mulheres
ganharam 3,3 cm em 14 anos. Elas cresceram quase duas
vezes mais que os homens, passando de uma média
de 1,55m, em 1989, para 1,58m, em 2003. Eles, nesse
período, aumentaram 1,9 cm no tamanho e chegaram
a uma média de 1,70 m em 2003 – contra
1,68m em 1989. Entretanto, esse ganho de altura entre
os adultos ainda está abaixo do padrão
mundial usado como referência.
HOMENS COM MAIS RISCO DE OBESIDADE –
O estudo aponta também um aumento na relação
entre peso e altura (Índice de Massa Corporal
- IMC). A tendência de crescimento é
maior entre os meninos de 10 a 19 anos. Esse grupo
apresentou o maior risco de obesidade, com um aumento
de 82,2% do IMC em 29 anos. “Embora os números
demonstrem que os meninos estão abaixo do padrão
referência da OMS, preocupa o aumento crescente
do peso deles”, analisa Deborah Malta.
Entre as meninas de 10 a 19 anos, o aumento do IMC
foi de 70,3%. Contudo, no caso delas, existe uma tendência
a estabilidade. Elas apresentam índices próximos
do padrão de referência. Também
há diferença entre os dois sexos na
idade adulta. Enquanto o risco de obesidade dos homens
aumentou constantemente em 29 anos, as mulheres mantiveram
o índice estável nos últimos
15 anos da análise.
“O estudo aponta uma reação das
mulheres contra o sobrepeso. Dos anos 90 à
atual década, o peso delas tende à estabilidade.
Esta situação ainda é mais clara
entre mulheres com maior escolaridade e renda. Elas
demonstram muito mais preocupação com
o corpo e a saúde do que os homens”,
afirma Deborah Malta. Ela acrescenta que o aumento
do peso é uma tendência mundial que reflete
as mudanças no padrão de alimentação
e do estilo sedentário da população.
“Em todo o mundo, aumentou o consumo de alimentos
industrializados, com mais gordura e açúcar”.
No Brasil, entre 1974 e 2003, as mulheres ganharam
1,6 kg/m² e os homens, 2,2 kg/m². O estudo
Saúde Brasil 2008 indica que, apesar do aumento,
a média do IMC do brasileiro ao fim do período
avaliado está muito próxima dos 25 kg/m².
O sobrepeso é caracterizado quando o IMC ultrapassa
esse valor e a obesidade, quando o índice fica
acima de 30. O excesso de peso atinge uma parcela
significativa da população. Dados do
Ministério da Saúde de 2008 apontam
que 43,3% das pessoas com mais de 18 anos que vivem
nas capitais estão com sobrepeso.
PROMOÇÃO DA SAÚDE
- Nos últimos três anos, o Ministério
da Saúde repassou mais de R$ 92 milhões
para projetos de promoção da saúde,
incentivo à atividade física e hábitos
alimentares saudáveis. Ao todo, 460 municípios
foram beneficiados. Em novembro deste ano, mais R$
51 milhões serão destinados às
iniciativas no setor. Ao todo foram selecionados projetos
de 1.260 municípios. “Com isso, esperamos
aumentar os níveis de atividade física
da população, contribuindo com o controle
do sobrepeso”, afirma Deborah Malta.
SUPLEMENTO ALIMENTAR - O Ministério
da Saúde investe, anualmente, R$ 37 milhões
em ações de promoção de
hábitos alimentares saudáveis, prevenção
e controle de distúrbios nutricionais e doenças
associadas à alimentação nos
estados e municípios, além da capacitação
de profissionais. Desse total, R$ 22 milhões
destinam-se a compra e a distribuição
de suplemento de ferro e vitamina A. Esses produtos
ajudam no combate à desnutrição
e à mortalidade de crianças de seis
meses a cinco anos de idade. Em 2009, 450,5 milhões
de comprimidos e 9 milhões de frascos desses
dois suplementos foram distribuídos aos estados,
beneficiando 10,9 milhões de pessoas.
Com o objetivo de fortalecer as ações
de promoção e orientação
para uma alimentação saudável
nas cidades, o Ministério aumentou o número
de municípios que recebem recursos diretos
para iniciativas no setor. Em 2009, 172 municípios
receberam o incentivo, contra 132, em 2008. Isso porque
antes apenas as cidades com mais de 200 mil habitantes
recebiam a verba. Agora, conforme portaria publicada
em outubro de 2009, o critério passou a ser
municípios com mais de 150 mil. Os governos
locais das 172 cidades receberão R$ 6,33 milhões.
Contando com os valores repassados aos estados, o
total será de R$ 8,63 milhões.
HÁBITOS SAUDÁVEIS
- Além desse investimento, o Sistema Único
de Saúde (SUS) conta hoje com 526 nutricionistas
e 382 profissionais de educação física
que acompanham o trabalho das equipes de Saúde
da Família em todo o país. Eles atuam
nos Núcleos de Apoio da Saúde da Família
em ações de promoção da
saúde, incentivo e orientação
para uma alimentação saudável
e prática de exercícios, acompanhamento
do peso e estatura dos pacientes. Os núcleos
foram criados em 2008, com o objetivo de reforçar
o trabalho das equipes de saúde da família.
Atualmente, 769 estão em funcionamento em todo
o país.
A promoção e orientação
sobre alimentação saudável é
também uma das diretrizes do programa Saúde
na Escola, em que as equipes de saúde da família
atuam nas instituições, com o apoio
dos professores. A iniciativa, criada em 2008, atende
2,6 milhões de alunos em 608 municípios
de todos os estados brasileiros e Distrito Federal.
O programa funciona em 16.470 escolas, onde atuam
2.700 equipes de saúde da família.