Ibama fecha operação
Boi Pirata II. Saldo assusta pecuária ilegal
sexta-feira, 29/01/10 - 16h12
Fiscalização embarga
50 mil hectares, bota 6 mil bois para fora de terras
públicas e apreende outros mil na Floresta
Nacional do Jamanxim, na região da BR-163
Não gaste para desmatar e plantar pasto porque
nós vamos pegar os bois. Esse é a mensagem
que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos
Naturais Renováveis (Ibama) vem dando a criadores
de gado no Pará que teimam em seguir derrubando
árvores ilegalmente na zona de influência
da BR-163, que corta o Sudoeste do estado. O saldo
de oito meses da operação Boi Pirata
II comprova que o recado do órgão está
sendo dado de maneira clara. A intensidade da fiscalização
no município de Novo Progresso, um dos campeões
do desmatamento na Amazônia, embargou 50 mil
hectares, lavrou mais de 100 autos de infração
e forçou a retirada de milhares de cabeças
de bois de terras onde crescem florestas e que muito
provavelmente são públicas.
O vigor da ação federal limpou de bois
a Floresta Nacional do Jamanxim, criada em 2005, depois
do assassinato da freira Dorothy Stang, e que tinha
virado uma espécie de baluarte do desafio de
pecuaristas ao poder federal. Os sindicatos rurais
da região insistiam em mandar seus associados
manter o gado na área, fazendo troça
do poder do Ibama de expulsá-los de lá.
Por enquanto pelo menos, a atuação dos
fiscais anda deixando a turma da motosserra, que costuma
se divertir fazendo pouco da lei, cabisbaixa.
Todas as áreas embargadas por desmatamento
ilegal ou por impedir a regeneração
da floresta foram multadas e os fazendeiros que mantinham
gado foram notificados para retirar os animais do
local, sob a pena de os verem apreendidos. Com medo
de perder os bois, alguns proprietários agiram
rápido. “Na primeira notificação
alvo, de uma área com desmatamento antigo,
havia mais de seis mil bois que foram retirados em
uma semana”, relata Bruno Barbosa, Coordenador
Geral de Fiscalização do Ibama. Porém,
em outros casos, foi preciso enfrentar longas batalhas
judiciais, como é o caso da fazenda Igrejinha.
Instalada na maior desfaçatez dentro da Floresta
Nacional do Jamanxim, uma Unidade de Conservação
que pertence a todos os brasileiros, seu ‘dono’,
ou grileiro, Silvio Queiroz, um valentão conhecido
como Polaco na região, conseguiu entrar na
justiça para adiar a retirada. Mas felizmente,
acabou perdendo. As chuvas torrenciais das duas últimas
semanas complicaram a logística para a apreensão
e retirada do gado de Polaco da Floresta do Jamanxim.
Seus mil bois estavam a uma distância de cerca
de 60 quilômetros de Novo Progresso. Parece
pouco, mas na Amazônia, 60 quilômetros
podem demorar uma vida para serem percorridos.
“Eu perdi a conta de quantas vezes a gente
atolou”, conta Givanildo Lima, analista ambiental
do Ibama e coordenador da etapa final da Operação
Boi Pirata 2. Com lama até os joelhos, oito
fiscais do Ibama e 32 agentes da Força Nacional
montaram acampamento na fazenda Igrejinha para vigiar
o gado e conduzir a retirada dos bois do local. Para
a remoção do gado do interior da floresta,
foram necessárias 10 carretas e dois caminhões
trucados além das seis pick ups 4X4 com guincho
do Ibama.
Cinco vaqueiros também vieram de Santarém
para tocar os bois por 40 quilômetros na estrada
de terra onde o tráfego de caminhões
era impossível. Uma carreta virou, oito bois
morreram, mas o gado acabou saindo da Floresta do
Jamanxim. “Hoje estamos retirando os últimos
bois de áreas desmatadas ilegalmente em Novo
Progresso e se os satélites mostrarem que o
desmatamento voltou, a gente também volta”,
disse Barbosa.
Tudo indica que a estratégia do governo para
combater o desmatamento daqui para frente é
por em prática grandes operações
como essa do Ibama, que durem por um bom tempo e mandem
um recado aos pecuaristas de que boi fora da lei já
era. “Essas ações tem resultados
bons a curto prazo, mas a médio e longo prazo
não garantem que a ilegalidade não retorne”,
afirma Marcio Astrini, da Campanha Amazônia
do Greenpeace. “Para que isso aconteça,
o governo federal precisa tornar a sua presença
permanente e não apenas pontual”.
Graças a um decreto presidencial, o Ibama
agora tem o poder de notificar e apreender bois criados
em áreas de desmatadas. Antes da mudança,
os donos das fazendas não acreditavam que as
apreensões fossem ocorrer. E mesmo que a área
fosse embargada, eles mantinham seus animais no local.
Essa tranqüilidade com os que não cumpriam
a lei, pelo menos esse ano foi definitivamente abalada.
A Boi Pirata II custou aproximadamente R$ 2 milhões,
envolveu mais de 100 fiscais do Ibama e contou com
o apoio da Força Nacional. O gado apreendido
do valentão Polaco foi doado pelo Ibama para
programas sociais do governo federal no Pará,
Bahia e Maranhão por meio de um convenio do
órgão com o Ministério de Desenvolvimento
Social (MDS). Hoje à tarde, agentes do Ibama
farão uma reunião com as entidades representativas
dos produtores rurais da região de Novo Progresso
para tentar convencê-los sobre a importância
de conter o desmatamento. Para contribuir na persuasão
da turma, vão levar os números finais
da operação, uma prova de que este ano
não foi igual aqueles que passaram. Tomara
que 2010 também não.
Fonte: ASCOM Greenpeace