Mina de urânio da INB em Caetité
recebe do Greenpeace a marca de área de contaminação
quarta-feira, 27/01/10 - 13h56
Prefeitura do município lacrou só anteontem
outro ponto de água radioativa, apesar de notificada
sobre o problema no dia 21 de janeiro. Placa diz que
o lacre foi colocado no dia 22 de janeiro.
Ativistas do Greenpeace realizaram um protesto hoje
pela manhã, em frente à mina de urânio
operada pela estatal Indústrias Nucleares do
Brasil (INB) em Caetité, na Bahia. Eles estenderam,
no portão da mina, uma faixa com a frase "Área
de contaminação". Nada mais apropriado.
Ali, numa análise feita recentemente pelo Instituto
de Águas e Gestão do Clima (Ingá)
do governo baiano, foram descobertos dois pontos de
água contaminados por urânio –
um deles com índices de radioatividade 40 vezes
acima do nível considerado tolerável
para humanos pelo ministério da Saúde.
Eles se somam a outros dezessete pontos de água
no município de Caetité em que análises
realizadas desde 2005 detectaram níveis altos
de radiação, o que torna a frase da
faixa do protesto ainda mais adequada. Há fortes
suspeitas de que a operação de mina
da INB esteja provocando a contaminação.
A estatal nega ser a responsável, alegando
que a radioatividade encontrada na água da
zona rural de Caetité é consequência
da presença de urânio no solo da região.
Mas se recusa a apresentar qualquer prova de que
o que ela diz é a verdade. Ainda que seja,
isso não exime a empresa da responsabilidade
de orientar a população local sobre
os perigos que ela enfrenta. Mas a INB prefere tapar
os ouvidos e os olhos para o problema, que por sinal
ela já chegou até a afirmar que não
existe, publicando no jornal que distribui à
população local a manchete “Está
tudo bem com nossos poços”.
Na última quinta-feira, dia 21, a prefeitura
de Caetité e a INB foram notificadas para suspender
imediatamente o uso de água de três pontos
– um deles um poço em Barreiros, zona
rural da cidade), onde detectou-se a presença
de radioatividade nociva à saúde humana.
A INB não deu qualquer satisfação
sobre que atitudes tomou acerca dos dois pontos de
água radioativa que foram encontrados no terreno
de sua mina.
A prefeitura de Caetité ignorou a notificação
até ontem, quando ativistas do Greenpeace foram
ao prédio da Secretaria de Recursos Hídricos
do município e convidaram o secretário
a beber da água coletada no dia anterior no
ponto contaminado de Barreiros. Nilo Joaquim de Azevedo,
no entanto, zelou por sua saúde da maneira
oposta que zelou pelo bem estar da população
local e recusou-se a tomá-la. As autoridades
locais seguiram seu exemplo e também não
tiveram coragem de aparecer para bebê-la.
Mas tiveram peito para armar uma falseta. Logo depois
do protesto do Greenpeace, a prefeitura despachou
funcionários para lacrar o poço contaminado
em Barreiros com um selo com data retroativa de 22
de janeiro – que no dia 26 do mesmo mês
permanecia aberto e com sua água sendo consumida
por 30 famílias que moram no local.
Dos 19 pontos de contaminação encontrados
em Caetité desde 2005, alguns estão
dentro da zona de operação da mina de
urânio da INB e a maioria espalha-se pelo seu
entorno, na área definida como zona de influência
direta do empreendimento. "A empresa alega fazer
mais de 16 mil análises de água anualmente,
mas até hoje nunca tornou público seus
métodos de exame e muito menos os resultados",
afirmou André Amaral, coordenador da campanha
de nuclear do Greenpeace.
Uma das condicionantes do licenciamento ambiental,
que exigia a realização de estudos que
poderiam mostrar a influência da mineração
nos recursos hídricos da região, nunca
foi devidamente cumprida. Em seu lugar, apresentou-se
tão somente uma análise considerada
incompleta e inconclusiva da antiga Secretaria de
Recursos Hídricos do Estado da Bahia, que foi
sucedida pelo Ingá. Outra condicionante, que
demandava um acompanhamento periódico da saúde
da população que habita um raio de 20
quilômetros a partir da mina também foi
esquecida em alguma gaveta da INB.
Alguns pontos onde detectou-se contaminação
por urânio em 2005 permanecem abertos e sua
água segue sendo consumida pela população,
sem que a empresa e o governo municipal se dignem
a tomar qualquer providência.
Recentemente o Greenpeace denunciou um vazamento
que levou a empresa a receber uma multa de R$1 milhão
de reais do Ibama. Em 2000, primeiro ano de operação
da mina, a INB tentou esconder que 5 milhões
de litros de licor de urânio foram liberados
no meio ambiente. As autoridades foram informadas
sobre o caso seis meses depois, também por
denúncia, dessa vez,do Ministério Público.
No verão de 2004, chuvas excessivas atingiram
a área da mina e a bacia de retenção
da mina transbordou sete vezes, liberando efluentes
líquidos com concentração de
urânio-238, tório-232 e rádio-226
no leito do Riacho das Vacas. Em função
da avaliação dos impactos desse acidente
e das condições de operação
da mina da INB, os fiscais da CNEN elaboraram parecer
técnico solicitando a paralisação
das atividades de mineração em Caetité
e a não-renovação da licença
de operação.
Além de medidas para evitar deslizamentos,
recomendou-se na época uma série de
ações por parte da empresa, todas recusadas
por Odair Dias Gonçalves, presidente da CNEN,
órgão regulador da indústria
nuclear, que curiosamente preside também o
conselho administrativo da INB, a quem ele deveria
controlar. O conhecimento dos técnicos, relevado
por razoes obvias por Gonçalves, devia ter
sido considerado: ano passado ocorreu um deslizamento
que, segundo moradores da região próxima
à mina, fez com que eles tivessem a sensação
de que estavam vivenciando um terremoto, colocando
em risco a vida dos próprios funcionários
da mina.
Fonte: Greenpeace