Poço contaminado com radiação
permanece aberto em Caetité
terça-feira, 26/01/10 - 19h34
Mesmo após notificação
da Secretaria de Saúde da Bahia e do Inga (Instituto
de Gestão das Águas e Clima), água
segue sendo consumida pela população
Ativistas do Greenpeace protestaram em frente ao
prédio da Secretaria de Recursos Hídricos
de Caetité, município do sudoeste da
Bahia que abriga uma mina de urânio operada
pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil
(INB), pelo descaso das autoridades locais em relação
à saúde da população rural
do município.
Na última quinta-feira, dia 21, a prefeitura
de Caetité e a estatal INB (Indústrias
Nucleares do Brasil) foram notificadas para suspender
imediatamente o uso de água de três pontos
(entre eles um poço em Barreiros, zona rural
da cidade), onde detectou-se a presença de
radioatividade além do permitido pelo Ministério
da Saúde.
A INB não deu qualquer satisfação
sobre que atitudes tomou acerca dos dois pontos de
água radiotiva que foram encontrados no terreno
de sua mina. Quanto à prefeitura, ela simplesmente
não moveu sequer um dedo para impedir o acesso
ao poço de Barreiros e fornecer fontes alternativas
de água à população local.
Essa foi a razão do protesto do Greenpeace,
realizado em frente à Secretaria de Recursos
Hídricos do município.
A estrela da manifestação foi o Caveira
Guy, anti-herói nuclear brasileiro. Enquanto
ele oferecia às autoridades locais, em uma
barraquinha improvisada, água coletada no poço
de Barreiros e acondicionada dentro de garrafas com
o rótulo “Água INB, Gostosa de
Morrer”, ativistas do Greenpeace, dentro do
prédio, convidavam o Secretário de Recursos
Hídricos a matar a sede com o líquido
contaminado.
Afinal de contas, se não fechou o poço,
pode-se supor que ele acredita que análise
da água feita pelo Instituto de Gestão
de Águas e do Clima do estado está errada.
Portanto, não havia razão para que não
consumisse a mesma água que a população
de Barreiros bebeu e ainda está bebendo.
O secretário Nilo Joaquim de Azevedo, no entanto,
demonstrou maior cuidado com sua saúde do que
com o bem estar dos eleitores e recusou-se a beber
a água contaminada. Nenhuma outra autoridade
local apareceu para tomar o líquido.
O poço da comunidade de Barreiros foi aberto
em 2007 e fornece água para toda aquela região.
Dados oficiais apontam que 15 famílias fazem
uso da fonte. Mas uma equipe do Greenpeace foi até
o local e constatou que, além de continuar
aberto, o poço é utilizado pelo dobro
de famílias. Na água, o Inga detectou
um índice de radioatividade de 0,3 bq/litro*.
O máximo permitido de acordo com a portaria
518 do Ministério da Saúde é
de 0,1 bq/litro.
Os outros dois pontos onde o Inga detectou contaminação
por urânio ficam na área interna da mina
operada pela INB. Num poço, o índice
de radioatividade, de 4,07 bq/ litro*, está
40 vezes acima do que é permitido. No outro
ponto de contaminação dentro do terreno
da INB, um tanque de acumulação de água,
a radiotividade detectada foi de 0,23 bq/litro.
A suspensão imediata do uso da água
nestes três pontos foi determinada pelo diretor
geral do Inga, Julio Rocha, logo após o recebimento
dos resultados da última análise realizada
pelo órgão na região. A presença
de contaminação por urânio acima
dos níveis considerados seguros para humanos
em poços na área rural do município
foi detectada pela primeira vez em 2005.
Em fins de 2008, o Greenpeace conduziu uma análise
independente em sete pontos na região e constatou
índices de contaminação elevados
em dois deles. O Greenpeace levou os resultados para
o Ministério Público Federal, que moveu
uma ação civil pública contra
a INB, e para o Ingá, que decidiu analisar
as fontes de água na região.
A INB opera a mina de urânio de Caetité
desde meados da década de 90 e apesar de garantir
que faz análises periódicas da água
em poços do município, não se
tem notícia de que elas detectaram qualquer
grau de radiotividade nocivo à saúde
humana nos pontos analisados – que por sinal
ninguém fora da empresa sabe quais são.
Depois que exames independentes registraram a presença
da contaminação, a estatal mudou o discurso.
Parou de bater na tecla de que o consumo da água
local era seguro e passou a dizer que a extração
de minério não tem nada a ver com isso
e que a radioatividade encontrada na água que
serve a centenas de famílias em Caetité
é fruto do alto teor de urânio presente
no solo da região. Em outras palavras, a INB
deu uma de Pôncio Pilatos e lavou as mãos.
O ônus de provar que sua mineração
de urânio não tem nada a ver com o problema
permanece no colo da INB. A empresa é uma estatal
financiada às custas do contribuinte. É
portanto inconcebível que ela continue a tratar
com tamanho desleixo a saúde não apenas
de quem lhe paga as contas, mas que em última
análise são também seus acionistas.
Mesmo que ela consiga um dia provar sua inocência
na contaminação, isso não a exime,
como a principal especialista em questões de
urânio em Caetité, a orientar as autoridades
e população locais sobre a necessidade
de evitar o consumo da água contaminada.
Mas a INB nunca se pronunciou sobre o assunto –
a não ser para dizer que o problema não
é seu. E nenhuma família jamais foi
orientada de forma oficial sobre o caso. As informações
que a comunidade ameaçada de contaminação
possui foram obtidas através da imprensa.
*Bq/litro - Bequerel por litro - unidade usada para
mensurar a radioatividade.