Há nuances de autoritarismo
do Estado na construção do Complexo
do Madeira, alerta o doutor Alfredo Wagner
terça-feira, 02/03/10 - 16h18
por Rogério Almeida
A disputa pela terra e os recursos nela existentes
coloca ao centro a disputa pelo projeto de desenvolvimento
em que estão em oposição grandes
corporações do setor do agronegócio,
mineradoras, construtoras de barragens, base de lançamento
de foguetes de Alcântara, empresas de cosméticos
e farmácia; e no outro extremo camponeses,
indígenas e quilombolas e demais modos de vida
considerados tradicionais na Amazônia. E aprofunda
a condição colonial da região,
como mera exportadora de matéria prima, numa
âncora de projetos marcados pela lógica
de enclave.
Conflitos Sociais no Complexo do Madeira demorou
dois anos e meio para ser produzido e agrupa 21 artigos
e doutores, mestres, graduados, mestrandos e doutorandos
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade
Federal do Pará (UFPA).
A obra organizada pelo antropólogo Alfredo
Wagner Berno de Almeida foi lançada ontem sob
uma noite de chuva na Estação Gasômetro
Parque da Residência, no bairro de São
Braz em Belém. Uma espécie de teatro.
O organizador do livro avalia que há nuances
autoritárias na intervenção do
Estado. Na opinião de Almeida os modelos de
megas projetos de geração de energia
e outros similares não permitem a publicização
de informação. Tal conformação
não se coaduna com uma sociedade democrática.
O livro recupera 200 anos de relatos dos naturalistas.
Na opinião de Almeida a burocracia do Estado
despreza a ética, não considera a diversidade
socioambiental e o ser humano. Indígenas, quilombolas,
extrativistas e pescadores protagonizam várias
passagens do livro.
A situação de disputa pelo território
e os recursos nele existentes impregnam a aquarela
de tensão na Amazônia. Faces que dialogam
com processos gerados em grandes centros de desenvolvimento
que demandam matérias primas, como no caso
da China, bem como os processos de integração
regional como a Iniciativa de Integração
da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) e
o Plano de Aceleração do Crescimento
(PAC), da alçada do Governo Federal.
No horizonte, o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) emerge como ponta
de lança. Instituições como o
Banco Mundial e o BID gravitam como fomentadores de
projetos e políticas públicas para a
periferia.
Guilherme Carvalho, historiador e doutorando da UFPA,
Joseline Trindade, professora da UFPA, Rosa Elizabeth
Acevedo Marin, professora do Núcleo de Altos
Estudos da Amazônia (NAEA) e Dion Monteiro,
economista e doutorando da Universidade de Paris 13
e membro do coletivo Xingu Vivo compuseram a mesa
de debate.
Monteiro recuperou a contribuição de
Glenn Switkes, ambientalista engajado nas causas dos
rios, falecido no fim do ano passado. E disparou contra
a ação da Advocacia Geral da União
(AGU), que ameaçou o trabalho dos procuradores
do Ministério Público Federal (MPF).
O MPF tem se notabilizado pela excelente fiscalização
sobre os megas projetos no Pará. E sido um
parceiro junto às comunidades consideradas
tradicionais.
Guilherme Carvalho, que tem se especializado em buscar
entender o papel das agencias multi laterais, avalia
que muita coisa pode ser realizada para otimizar a
amplificação da energia antes de erguer
megas hidrelétricas na Amazônia. Modernizar
as hidrelétricas antigas e reduzir a perda
da energia no processo de transmissão, estimada
em 15%, seria de grande valor.
Carvalho pondera que o xadrez político e econômico
envolve inúmeros interesses. Vendedores de
aço, cimento, construtoras, consultores e tantos
outros. Ele registra que até 2050 há
302 projetos de construção de energia
na Amazônia.
Na opinião de Carvalho a experiência
do Complexo de Hidrelétricas do Madeira serve
como uma espécie de laboratório. Um
exercício para acumular conhecimento no campo,
técnico, jurídico e político
e amplificar para o resto da região.