“Xingu Vivo Para Sempre”
sexta-feira, 05/03/10 - 15h25
Personalidades premiadas pela OAB – PARÁ,
com o prêmio de Direitos Humanos, mostram-se
indignado com decisão do seu Conselho Deliberativo,
sobre Belo Monte.
Nós, Antônia Melo da Silva, Cacique
Dada Borari, Congregação de Notre Dame,
Pe. Edilberto Sena, Dom Erwin Krautler, Frei Henri
Burin des Roziers, há dezenas de anos empenhados
na defesa da Dignidade e dos Direitos Humanos na Amazônia
e por isso reconhecidos pela Ordem dos Advogados do
Brasil, Seção Pará, e homenageados
com o Prêmio de Direitos Humanos José
Carlos Castro, manifestamos o nosso total repúdio
à declaração de apoio desta instituição
à Construção da Hidrelétrica
de Belo Monte, aprovada por seu Conselho Deliberativo
no dia 26 de fevereiro de 2010.
Não entendemos como a atual gestão
de tão respeitada entidade pode tomar uma posição
diametralmente oposta ao Estatuto da Advocacia e da
Ordem dos Advogados do Brasil, que dispõe:
“Art.44 A Ordem dos Advogados do Brasil - OAB,
serviço público, dotada de personalidade
jurídica e forma federativa, tem por finalidade:
I - Defender a Constituição, a ordem
jurídica do Estado democrático de direito,
os direitos humanos, a justiça social, e pugnar
pela boa aplicação das leis, pela rápida
administração da justiça e pelo
aperfeiçoamento da cultura e das instituições
jurídicas”. O Conselho Deliberativo da
OAB-Pará, com uma pressa inexplicável
aprovou a construção da hidrelétrica
de Belo Monte, sem sequer convidar representantes
dos Ministérios Públicos Estadual e
Federal para inteirar-se dos reais motivos que levam
estes órgãos a questionar judicialmente
o projeto.
O impacto social que Belo Monte causará é
o campo específico em que advogados são
chamados a agir: “Defender a Constituição,
a ordem jurídica do Estado democrático
de direito, os direitos humanos, a justiça
social, e pugnar pela boa aplicação
das leis”. No entanto, ao aprovar Belo Monte,
a OAB está desrespeitando o Estado Democrático
de Direito e, ao não convidar membros dos dois
Ministérios Públicos, se torna omissa
quanto à defesa da Constituição.
A previsão de construção da
Hidrelétrica deveria pôr a OAB até
em estado de alerta, pois cidadãs e cidadãos
e povos indígenas, todos eles brasileiros,
ficarão aviltados, violados em seus direitos
e indelevelmente marcados pelas agressões que
sofrerão por determinação de
um governo autoritário que se nega a escutá-los
como mereceriam. Lamentavelmente as condicionantes
que acompanham a Licença Prévia não
se referem à desgraça de que milhares
e milhares de pessoas humanas serão vítimas.
Honrando os prêmios que nos foram outorgados
pela OAB para enaltecer o nosso empenho em defesa
da vida, da justiça e do meio-ambiente na Amazônia,
vimos afirmar:
Nós esperávamos que a OAB, de acordo
com o seu Estatuto, antes de qualquer manifestação
a favor ou contra o empreendimento hidrelétrico
de Belo Monte, exigisse do Governo explicações
detalhadas sobre o futuro das famílias que
serão arrancadas de seus lares e a respeito
do povo de Altamira que permanecerá na cidade,
mas será exposto à toda sorte de pragas
e doenças endêmicas, pois terá
que viver à beira de um lago de águas
estagnadas, podres e mortas. As condicionantes não
falam desta tragédia programada. Como então
a OAB pode endossar as condicionantes da Licença
Prévia qualificando-as como suficientes?
Nas audiências públicas, os órgãos
do Governo cumpriram apenas um ritual seco para atender
à letra de parágrafos sem, no entanto,
fazer valer a Lei, levando em conta os verdadeiros
objetivos de uma audiência pública. Também
naquelas ocasiões os representantes dos Ministérios
Públicos Estadual e Federal não foram
convidados à mesa. Mataram assim deliberadamente
o espírito da lei. Por que a OAB não
cumpre a sua missão de denunciar essa farsa?
Chegamos até a cogitar a devolução
dos prêmios. Não o faremos por entendermos
que com isso desmereceríamos a entidade como
um todo, a gestão anterior que, de forma ativa
e decidida promoveu a Defesa da Vida dos Direitos
Humanos e do Meio Ambiente e ainda o renomado advogado
que deu o nome ao prêmio, José Carlos
Castro.
Lamentamos que a atual gestão, de mãos
dadas com o Governo e seus órgãos, se
tenha precipitado em tomar decisões sem considerar
a dimensão e abrangência dos impactos.
Essa atitude arbitrária macula a histórica
postura da OAB na sua atuação em defesa
dos direitos dos cidadãos e cidadãs
brasileiros e do meio ambiente na Amazônia em
que vivemos.
Assinam o documento:
Antônia Melo da Silva - Altamira
Cacique Dada Borari – Santarém
Congregação das Irmãs de Notre
Dame de Namur /por Irma Dorothy - Belém
Pe. Edilberto Sena - Santarém
Dom Erwin Krautler - Altamira
Frei Henri Burin des Roziers - Xinguara